21 de jul de 2009

Falta uma janela no conflito entre professores e governo

Atribui-se a Tancredo Neves a assertiva de que em qualquer situação é sempre bom deixar uma porta aberta por onde se possa encontrar uma saída no mínimo honrosa, em caso de impasse; e se a porta não está fácil, pelo menos uma janela se crie. Isto no pressuposto de que seja qual for a natureza do conflito, mais cedo ou mais tarde se há de encontrar uma solução – quer contemple ou não os interesses litigantes, ou os contemple de maneira assimétrica refletindo a vitória de um sobre o outro.

Sem nos atermos aqui ao complexo imbróglio que põe temporariamente em lados opostos o governo do estado e os professores em greve – são múltiplos a fundados os argumentos de parte a parte -, parece evidente que o diálogo em algum momento azedou, instalando-se o impasse e, na esteira do impasse, a radicalização quase incontornável de argumentos e atitudes.

É claro que quando o jogo endurece e o consenso é condenado às calendas gregas um lado afinal vencerá e o outro sairá derrotado. Pelo menos parcialmente. E, tal como nas grandes guerras, o armistício é celebrado civilizadamente, sem outros constrangimentos além dos resultados colhidos no campo de batalha.

Suponhamos que os ânimos estejam demasiadamente acirrados, e de cabeça quente ninguém consegue baixar a bola e convergir para algum entendimento. Tudo bem. Se a coisa desandou, é natural que assim seja. Mas nada impede – se houver vontade mútua – de se estabelecer uma variante que, mesmo secundária e meramente acessória, ajude. A entrada em cena de uma comissão de representantes da Assembléia Legislativa, que cumprisse o papel de intermediadora do restabelecimento das conversações, bem que poderia ser essa variante. Já aconteceu isso em situações passadas de natureza semelhante, com êxito.

Consta que há disposição dos deputados estaduais para a empreitada e que contariam com a anuência das lideranças do movimento. Haveria igual disposição do governo do estado?

Bom que haja. Primeiro, porque acrescentaria um dado novo capaz, quem sabe, de alterar o clima na mesa de negociações – e, desse modo, contribuir para o necessário entendimento. Segundo, porque fortaleceria a convivência democrática entre professores e governantes, que a rigor, nesse caso, ressalvadas as discrepâncias em torno da pauta de reivindicações, não figuram em campos inimigos. Ao contrário: o governo é democrático, tem compromisso com os interesses fundamentais da população e se esforça por imprimir nova feição à educação pública (que recebeu do governo anterior sucateada). E os professores e sua representação sindical, idem. Terceiro, se poria fim a uma situação que, além das perdas e dos danos nas relações entre o governo e o sindicato, prolonga o desconforto de milhares de alunos e seus familiares duramente atingidos pela paralisação prolongada das atividades letivas.

Que se crie pelo menos uma janela, pois – se é que a porta é inviável – por onde possa se construir uma saída para o impasse.
Por Luciano Siqueira

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